Café com Canela: Morte e vida no Recôncavo Baiano

Quer ver um filme nacional bem maneiro, provocativo e ao mesmo tempo gostoso de assistir? E ainda por cima feito por jovens, cineastas baianos muito atentos ao que são a Bahia e o Brasil de hoje? Fica ligado, acompanha até o fim, mas se quiser, assiste esse texto no YouTube.

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A Bahia talvez seja o lugar mais decantado em prosa do Brasil. Nenhuma estatística, só minha impressão, mesmo. E estou falando só de prosa, se for incluir versos, sons e imagens, nem se fala. O baianês de novela é uma instituição nacional e devia ser tombado pelo Iphan. Mas baianês de novela é um sotaque proveniente de uma região imaginária da Bahia. A produção audiovisual local vem construindo seu próprio sotaque desde há muito, e especialmente no século XXI. A Bahia folclórica e turística de Jorge Amado, focada no pitoresco e no contraste entre o supostamente moderno e o supostamente primitivo, dispensa apresentação. O Jorge Amado sempre esteve junto do povo que ele amou, mas a visão sobre racismo no Brasil daquela época ainda era muito limitada pela crença em uma suposta igualdade que nunca existiu. O grande feito de Café com Canela é abrir novos espaços e criar novas imagens sobre a Bahia que vão além dessa visão da baiana quituteira do traje típico, por exemplo. Isso não significa fechar os antigos espaços, claro. O exagero, o pitoresco e a fantasia dão lugar a uma Bahia enfocada por uma mulher negra e um homem LGBT e mostrada de dentro para fora. Despida da fantasia de baiana, Café com Canela, lançado em 2017, foca no dia a dia de pessoas comuns falando sobre elas mesmas e sobre seus próprios problemas.

Filme bom de assistir, dirigido por Glenda Nicácio e Ary Rosa e ganhador dos prêmios de Melhor Atriz, Melhor Roteiro e Melhor Filme no Festival de Brasília de 2017, o drama gira em torno das histórias de Margarida e Violeta. Não se preocupem, não vou estragar o filme para vocês. E da forma como a solidariedade entre elas constrói o caminho para a cura do sofrimento comum a essas mulheres. Depois de perder o filho, Margarida entra em um processo de melancolia e se isola por anos em sua casa, terminando por perder também seu marido. Do outro lado, vemos Violeta em sua luta diária. Casada e cuidando dos filhos e da avó idosa, com sua bicicleta vai de porta em porta vendendo quitutes a bares e restaurantes locais para ganhar a vida. Em suas viagens pelas redondezas termina por encontrar Margarida. O Recôncavo Baiano de Café com Canela é um retrato da intimidade da gente da região, especialmente Cachoeira e São Félix, pintado por artistas locais. Muito mais do que uma cena pitoresca para turista ver ou para o consumo nas regiões Sul e Sudeste. A cultura do Recôncavo é enquadrada mais do ponto de vista do relacionamento entre as pessoas do que de outros aspectos, igualmente importantes, mas que acabaram construindo uma imagem engessada e de traços exagerados da Bahia. Não se trata de abandonar a cultura. O samba de roda está presente, o Candomblé também. É o ponto de vista. É a diferença entre falar sobre o outro e falar sobre si mesmo. E as nuances que essa mudança de perspectiva acrescenta à imagem da Bahia.

Duas festas marcam o início do filme e dão o tom do que esperar dele. Primeiro, imagens amadoras de festa de aniversário gravadas pelo pai da criança. Família reunida em torno do aniversariante, amigos e parentes vêm comemorar juntos. Depois, churrasco entre amigos, cervejinha e papo. Mas estamos falando de um drama e o drama de Margarida, que é também drama de muitas brasileiras e brasileiros, custou a ela muitos anos de vida e a Violeta, muito esforço. Todas as estatísticas apontam e todo mundo sabe ou deveria saber que no Brasil, pretos e pardos são mais vulneráveis e morrem com mais frequência que brancos. Não só por homicídio, mas por doença também. A pandemia foi o exemplo mais gritante disso. Deixa aí nos comentários o que você acha disso. A morte é a única certeza da vida, como dizem, mas se mostra sempre muito mais próxima e ameaçadora no horizonte de uma parte da população que de outra. E a morte não tem time de futebol, chega para todo mundo. Se existe uma diferença estatística entre dois grupos, isso acontece pela ação do homem. A causa da morte do menino Paulinho não é informada. E não importa. Poderia ser qualquer uma das causas mais comuns ou das mais raras de morte. O que importa é que esse evento único para Margarida une seu sofrimento ao de milhares de mulheres e seus filhos vulneráveis. Mas, como eu disse, o filme é sobre encontros e reencontros que a vida oferece. Não é à toa que começa e termina em festa. Nem é mera coincidência. As histórias de Margarida e Violeta se fundem por meio da solidariedade. União representada e celebrada com as festas.

No Brasil Colônia e no Brasil Império era muito comum estimular a separação de famílias e a vida de solteiro. Sim, um antigo hábito dos cidadãos de bem dessa época era mandar pais para uma fazenda, mães para outra e filhos para outra. Não os membros das famílias deles, claro. E a troco de quê? Dinheiro, claro. Como herança, hoje as famílias mais pobres e de pele mais escura tendem mais à desagregação. Café com Canela não é sobre as tristezas da vida, ainda que esteja atento a elas. Tem que ficar ligado, se não você se fode. Mas sim sobre as possibilidades que a vida oferece. Possibilidades de construção e reconstrução. Se a família de Margarida se esfacelou completamente, a de Violeta, ao contrário, se mostra como um grupo unido e feliz. Eles também estão lidando com a morte, mas de uma forma diferente. D. Roquelina, avó de Violeta está doente de cama. Violeta e seu marido se revezam nos cuidados com a anciã que vive uma velhice senil, mas em paz, cercada de pessoas amadas, fechando e reiniciando o ciclo das gerações como deve ser. Horizonte da morte e ciclo da vida. Fragmentação e articulação familiar. Paulinho e D. Roquelina. A morte de Paulinho é a morte de milhares de jovens negros e a fragmentação de Margarida é a fragmentação de milhões de famílias ao longo da história. Não se trata de deixar o passado para trás e seguir em frente. O passado sempre volta, ainda que muitos o neguem. As estatísticas de morte e desagregação familiar são o passado assombrando o presente. Trata-se, ao contrário, de fazer as conexões necessárias, entre as pessoas, as coisas e os fatos.

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